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Nós, as lideranças do povo A’uwé-Xavante das Terras Indígenas Sangradouro/Volta Grande, Parabubure, Kuluene, Pimentel Barbosa, São Marcos e Marechal Rondon e do povo Karajá Xambioá nos reunimos entre os dias 27 e 29 de novembro de 2019, na aldeia Abelhinha, TI Sangradouro/Volta Grande, para comemorar os 23 anos da nossa Associação Xavante Warã – AXW, e reafirmar o nosso compromisso com a luta do nosso povo, pela defesa do futuro, e do nosso território. Este evento teve como objetivo refletir as seguintes questões feitas pelos nossos avós:

E momo wa ai’ aba reni Para onde vamos?
E mari wa watsaima wedza rani dapoto tema hã O que queremos para as futuras gerações?

Eles se preocuparam, e nós nos preocupamos, com as agressões do governo waradzu contra o nosso povo. Ainda mais grave agora, que o Presidente Bolsonaro investe discurso, e recursos, para dividir o nosso povo estimulando o arrendamento das nossas terras para a criação de gado e o plantio de soja; a mineração; barragens hidrelétricas; e a construção de rodovias e ferrovias atravessando os caminhos antigos que ligavam as matas.

Nosso povo se reuniu para retomar esse caminho, e defender o nosso território e nossa autonomia.

Discutimos a conjuntura política nacional, e as ameaças de mudança na Lei e na Constituição, que os políticos querem fazer passar para legalizar o ilegal: a exploração das nossas terras pelas empresas e grandes fazendeiros.

Reafirmamos nossa posição contra as Emendas Constitucionais n. 187 e 343, e quaisquer outras tentativas de legalização do arrendamento e da mineração em terras indígenas.

Discutimos as tentativas de alguns Ministros do Supremo Tribunal Federal, eles mesmos comprometidos com a exploração dos nossos territórios, de restringir os direitos pela tese do marco temporal. Nos solidarizamos com o povo Xokleng e Guarani, que há muito lutam pela demarcação da TI Ibirama Lã-Klãnõ. Acompanharemos de perto o julgamento do Recurso Extraordinário 1.017.365, que impactará o futuro das demarcações das terras indígenas, inclusive a demarcação das nossas TIs Parabubure e Marãwatsedé, também pendentes de julgamento pela justiça waradzu. As comitivas das nossas lideranças, e nossos guerreiros, estarão mobilizados nesta luta.

Discutimos o número crescente de empreendimentos que impactam nossos territórios e suas imediações: inúmeras lavras minerais, grandes e pequenas centrais hidrelétricas, rodovias estaduais e federais e uma ferrovia transcontinental estão cercando nosso território e nosso povo. Enfrentaremos as licenças ambientais emitidas, sem consulta às comunidades, para projetos próximos nas nossas terras. Lutaremos para que nossos diretos sejam respeitados na construção e pavimentação das rodovias, em especial as tentativas do governo de cobrir de piche, e asfalto, e trilhos de trem no lugar da nossa aldeia antiga, o Tsorepré.

Discutimos as omissões na educação e na saúde indígena, desmontadas tanto pelo governo federal como pelo governo do Estado do Mato Grosso. Lutaremos para que nossas crianças tenham condições de frequentar escolas municipais e estaduais de educação específica, intercultural, diferenciada e bilíngue e/ou multilíngue; e que nossos jovens tenham condições de acessar a universidade pública, que é patrimônio do povo brasileiro, e por isso também do povo indígena. Lutaremos para que nossas aldeias tenham saneamento básico e atendimento médico para garantia da saúde para nossas crianças.

Assim, as lideranças aqui reunidas, reafirmam o seu compromisso contra o arrendamento de nossas terras e empreendimentos que nos atingem.

Como encaminhamento será realizado uma Assembleia Geral Auwé-Xavante no próximo ano.

Não desistiremos.

E quando for preciso, faremos guerra como sempre fizemos. Nossa organização faz 23 anos, mas nossa luta tem mais de 500.

Aldeia Abelhinha 29 de novembro de 2019. TI Sangradouro/Volta Grande.