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A Articulação das Mulheres Indígenas do Maranhão vem manifestar a sua posição relacionada a conjuntura política brasileira, a qual vem desrespeitando, ameaçando e afetando gravemente os nossos direitos.
Fizemos um denso e aprofundado diálogo sobre a conjuntura política nacional por ocasião da realização de nossa IV assembleia geral.

Não foram poucas as falas que relataram o quanto a conjuntura política nacional, e os Três Poderes do Estado Brasileiro, têm sido nocivos aos nossos modos de vida, nos criminalizando, ameaçando rever os limites dos nossos territórios, estimulando o avanço do agronegócio, a mineração e o desmatamento dentro dos nossos territórios. Dia a dia tem buscado retroceder os nossos direitos constitucionalmente conquistados desde 1988.

Nossa assembleia realizada nos dias 28 e 29 de fevereiro de 2020 na aldeia Maçaranduba, Terra Indígena Caru, Bom Jardim – MA que contou com a efetiva representação de mais de 160 participantes do Povo Ka’apor, Gavião, Mermotumré-kanela, Apãjnekra-kanela, Guajajara, Awá Guaja, Krikati, Tremembé e Krenyê. Contamos também com a participação de importantes parceiros e aliados do Movimento Indígena, de Instituições Indigenistas, de Defesa dos Direitos Humanos, em âmbito local, regional e nacional. Estiveram presentes conosco nossas parentes aliadas do Povo Baré, Wapichana e Taurepang.

Caciques, lideranças que não estiveram presentes, também importantes na nossa trajetória, foram aqui lembrados, nossos ancestrais foram evocados.

Muitas de nós expressamos de várias formas o quanto é orgulhoso fazer parte dessa caminhada de luta das Mulheres Indígenas, uma caminhada que não é fácil, que é marcada por muitos desafios, por muitos sacrifícios, mas sobretudo marcada por muitas inspirações, espiritualidade e respeito.

Não temos nenhuma dúvida do que queremos desenvolver em nossos territórios que conservam e preservam a biodiversidade do Maranhão, não temos dúvidas que ajudamos a equilibrar o clima no planeta, não temos dúvidas que a nossa segurança alimentar é sagrada e vem dos nossos alimentos tradicionais, que a nossa saúde está ligada a nossa medicina tradicional, que a nossa espiritualidade é ancestral, que somos povos originários, e que toda a nossa reprodução física e cultural só é possível se tivermos os nossos territórios respeitados, livres de invasões, ameaças e violências.

Nos preocupamos também com os povos que ainda não possuem os seus territórios garantidos, e vamos lutar juntas por isso.

A nossa relação com os nossos territórios não é uma relação de propriedade, mas sim uma relação com o sagrado, a plena manifestação da própria natureza que junta os vários elementos essenciais às nossas vidas e das nossas futuras gerações.

Nesses dois dias rememoramos a nossa trajetória desde a constituição da AMIMA até os dias atuais, discutimos e identificamos desafios da nossa atuação e indicamos caminhos para manter a nossa caminhada em defesa de nossos direitos.

Hoje vemos o movimento mais forte, com cada vez mais mulheres participando de espaços de mobilização tanto nas comunidades, como nacional e internacionalmente. Isso é fruto do trabalho das mulheres que lutaram antes de nós. Com o maior envolvimento das mulheres no movimento indígena vamos aprendendo cada vez mais e lutando pela nossa autonomia para que ninguém mais fale por nós.

Não queremos ser mais do que os homens, queremos nosso espaço e lutar juntos porque entendemos que a luta pelos nossos direitos é de todos nós, então temos que envolver também os jovens, os homens e desde pequenos já ir educando nossos filhos. Enfrentamos muitos desafios como o preconceito, a dificuldade de deixar nossos filhos e nossas famílias para participar das reuniões, dificuldade financeira e de deslocamento. Além disso tem muitas parentes nas aldeias que não compreendem muito bem o movimento e acabam não participando.

Desse modo, precisamos trabalhar melhor a comunicação e sensibilização para essas questões nas nossas comunidades. Também precisamos trabalhar a formação e a conscientização política para o nosso povo, homens e mulheres, definindo e divulgando nossas pautas, uma vez que muitos assuntos são tabus, como por exemplo a violência que existe contra as mulheres dentro e fora das aldeias.

Nós mulheres precisamos fazer o movimento dentro das nossas aldeias e construir essa relação com as nossas parentes. As mulheres precisam ver que o movimento não é só para fora. Precisamos nos organizar dentro da aldeia e conquistar de dentro para fora, porque se temos uma aldeia organizada conseguimos realizar muitas coisas.

Pensamos uma forma mais ampla e representativa de nossa articulação política, envolvendo ainda mais todas as terras indígenas, todos os povos e regiões onde vivemos, envolvendo toda a nossa base. Será um novo exercício que estará em curso, que nos exigirá muito diálogo, companheirismo, compreensão, dedicação, comprometimento e entendimentos comuns.

Nesses dois dias de muitos encontros e reencontros, de muitas cantorias, de muito afeto entre nós, de chamamento e encorajamento para que continuemos firmes e juntas nessa luta, que é diária e de todas nós, de reforço às nossas espiritualidades, foram marcados pela evidente resistência dos povos indígenas, sobretudo, resistência das mulheres.

Com a cabeça erguida, atentas, com muito equilíbrio e força seguimos adiante com todos os nossos e as nossas encantadas.